Interlúdio – Os fins de tarde de verão

segunda-feira, 20/10/08

Poucos momentos são tão sublimes quanto um fim de tarde de verão, em especial aquelas poucas horas nas quais o sol ainda não se pôs totalmente, embora já tenha descido do trono celeste. A temperatura cai um pouco, o clima se torna mais agradável, as pessoas caminham nas avenidas caladas dos bairros ricos. As árvores lançam sombras compridas no asfalto e os últimos raios de luz se espalham pela água. É interessante parar por um instante o ritmo corrido do cotidiano e observar como o horizonte urbano se transforma, como a natureza parece dar vida a uma paisagem antes morta. Mesmo sem tanto movimento, há vida nas ruas ainda iluminadas e até mesmo aquela torre horrível de celular num morro próximo se torna um monumento, um monolito negro contra o sol poente. É hora de se chegar nas varandas das casas e apartamentos, pôr pra tocar um bom samba ou um jazz levinho e, com um copo de whisky (ou uma limonada), se despedir do astro morrendo e saudar a velha noite.

E pensar que tanta gente por aí, voltando nos ônibus ou mesmo depois de passar a tarde em casa, desperdiça tal momento de grandeza do dia com futilidades como a novela ou os scraps não lidos do yorgut! É quase um sacrilégio trocar um espetáculo da magnitude do pôr-do-sol. No pôr-do-sol, até os problemas devem ser esquecidos. Em respeito à morte do grande astro e já saudando a sua ressureição, só bons pensamentos são permitidos.

Muitas vezes quando conto às pessoas dessa minha admiração, elas riem, me chamam de bobo, dizem que eu perco meu tempo com isso. Mas com sorte chegará o tempo em que todos voltarão a olhar para fora desse mundo limitado de hoje e verão pelas paredes de vidro dos seus arranha-céus o espetáculo do velho rei partindo com sua dignidade costumeira. E serão mais felizes, pode apostar.