Sobre a Gnose Onírica do Bop

sexta-feira, 03/07/09

Outra noite, resolveu estudar ouvindo jazz. Coltrane. Óbvia contradição, poderia-se dizer, jazz e física – sendo um a expressão no abstrato do que o outro prega no plano concreto – se repelem. A perfeição austera de Bach, talvez, seria melhor escolha, de preferência alguma fuga pra cravo. Mas estava decidido, tentaria o jazz e que fosse o que Deus quisesse. O que Deus quereria? Outra pergunta interessante, mas sem espaço aqui. Confiante, escolheu um disco em meio aos tantos que atulhavam o quarto. Miles Davis e Coltrane – escolha fina. Pôs pra tocar, abriu os livros e começou.

O arrebatamento foi imediato, claro, mas diferente do que costumava acontecer. O ritmo do bop de repente mesclou-se com o ritmo da leitura, lia frenéticamente, à levada incansável do baterista. Começou a ver coisas qual esquizofrênico, via em sua frente os desenhos dos solos e das fórmulas e seus significados, muito diversos do que o que via no livro. O fechou, de nada valia. Enquanto o pianista improvisava veloz, em contraponto com a condução ininterrupta do baixo, uma enxurrada de imagens, nem todas descritíveis, vinham à sua mente. Apareciam cores e fórmulas e estranhas figuras perfeitas, que pulsavam à batida do jazz, e lhe vinham em velocidade cada vez maior. Olhou para as mãos trêmulas, suava em bicas, os pés se mexiam, incontroláveis. A vibração do corpo era tanta, sentia-se a ponto de ruir, estirou-se apoplético ao chão frio(calor, frio, nada disso existia ali), prendeu a respiração e preparou para se entregar ao que quer que existisse, naquela hora não importava mais  o que – bem diz o dito que não existem ateus na guerra – quando, de súbito, veio a compreensão.

O volume do som foi diminuindo até sumir, tornando-se não mais que uma remota sensação. A enxurrada cerebral estacou, as imagens foram assumindo uma posição fixa, como se todas não só tivessem um lugar definido mas estivessem cientes dessa definição. E ele, embora ainda as visse, compreendeu seu sentido, viu em cada uma delas um reflexo de si mesmo, uma projeção de sua própria experiência combinada à sua concepção do mundo, tudo jogado numa mistura de consciência e inconsciência, de conhecimento pleno e total ignorância, do que era e não era, do titânico vazio do Tudo e da perfeita integridade do Nada, onde tudo se completa em sua ausência, e só a própria existência gera a necessidade que por sua vez a origina. E na compreensão absoluta do todo, olhou pra si mesmo e chorou. “Pobre sou”, pensava, “com meus pequenos medos e desejos, que gigantes me parecem”. E compreendeu que não só tudo era possível como já fora criado, que a linha do tempo revolvia sobre si mesma, que tudo o que aconteceu e fosse acontecer já existia tempos antes e tempos depois de sua concepção. E, no meio de tudo, viu o pálido ponto azul, com suas formigas bêbadas correndo para chegar primeiro a lugar nenhum. Mas tudo começou a desvanescer, e o universo engolia a si próprio enquanto ele descia em queda livre à realidade, ou ao que quer que a chamemos.

Teve tempo ainda de vislumbrar mais uma vez o mecanismo universal antes de acordar – em sua cama. Levantou-se rápido e, já esquecido da experiência, preparou-se para o novo dia. Era quase hora da prova.

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Rotina

domingo, 12/04/09

I – Presto

Acordou, cedo como sempre. Sem perder tempo, levantou–se e tomou um banho pra afastar o sono. Comeu rapidamente enquanto observava o estado deplorável da cozinha. “Precisa de uma pintura, urgente”, pensou – não que  fizesse alguma diferença, ao menos não nas horas corridas da manhã. Saiu de casa e correu pro ponto de ônibus. Esperou e esperou pelo coletivo, e mais ainda dentro do próprio, a caminho do trabalho.

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II – Allegro, ma non troppo

Trabalho, trabalho, trabalho. Café. Mais trabalho, com direito ao maldito chefe ligando da praia para saber como estavam as coisas. Almoço. Conversa fútil, com um colega indiferente. Ainda mais trabalho. Formulários. Planilhas. Outro café, frio. Relatórios.

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III – Andante molto

Esperou, quase que entorpecido, pela chegada do ônibus, o cansaço nublando o caminho pra casa, em especial o ponto correto. Tropeçou até a porta da casa e entrou. Comeu tão lentamente quanto possível, refletindo sobre a prioridade do trabalho a ser feito nas paredes da cozinha. “Pode esperar”, pensou – não que valesse de algo, ao menos não com a exaustão do dia tornando as idéias difusas. Arrastou-se até o chuveiro  e ligou a água quente pra atrair o sono. Foi dormir, cedo como sempre.

E a vida passava, despercebida.


Impressões Introspectivas Sobre a Mudança

sexta-feira, 03/04/09

Sem pensar mais, tentou abrir a porta. Trancada. O homem, que fez da reflexão e da cautela sua vida, não podia esperar mais, e a arrombou. De dentro vinha o cheiro forte dos lugares fechados há muito, e o negrume era suavizado apenas pelos respingos de luz que o vitral deixava passar. Respirando fundo, passou pela porta. Ao pisar no umbral, porém, uma voz atrás de si falou:

-Sabe que não devia estar aqui.

Era apenas um velho, já sem brilho nos olhos, que falava. O homem não lhe deu ouvidos. Sabia quem era o velho, e sabia que, se o escutasse demais, acabaria por não agir. E precisava agir, queria agir. O velho balançou a cabeça enquanto o homem penetrava na treva.
E que treva estranha o homem penetrava! Nos cantos, mal discerníveis no escuro, viam-se pilhas e pilhas de ossos, lixo, e mesmo objetos que deviam ter sido tesouros em seus tempos. Nas paredes, rabiscos indecifráveis sujavam a pedra, já escurecida por algum fogo que ali ardeu. Do lado oposto à porta, uma corrente de ar denunciou um corredor, e o homem andou em sua direção. O vento lhe fez frio, e o homem ficou com medo. De trás, veio novamente a voz do velho:

-Desista, enquanto há tempo. Por esse caminho, só incertezas.

O homem quase lhe deu ouvidos, mas seguiu em frente. O medo pesava-lhe as pernas, e cada passo era um martírio. A menos de dois passos do corredor, deste saiu um menino. Aparentava uns sete anos, talvez menos, e vestia roupas sujas e rasgadas. Pondo seus grandes olhos nos do homem, falou:

-Moço, volta. Ninguém sabe o que há no final do corredor, e é melhor não descobrir.

O homem sabia também que não devia deixar-se levar pelo menino, e seguiu pelo caminho. Ao final, encontrou uma porta, e, a seu lado, um soldado moribundo, sem espada e com o elmo partido. Este disse ao homem:

-Homem, desista, não vale a pena tal esforço. Tantas vezes entregou-se, pra quê insistir agora? Vai, e leva-me embora daqui.

E agarrou-se à perna do homem, que, enojado, sacudiu-a até se ver livre. E sabendo que não podia esperar mais, abriu a porta e correu.

E atrás da porta extendia-se-se o inferno e o céu.


Reflexões Melodramáticas ao Fim da Juventude

sexta-feira, 03/04/09

Eu, que jogado por terra
Tantas e tantas vezes
Tentei seguir o conselho do Velho:

E fui destruído, mas não derrotado;

E atirado aos leões por ser bom
E tornado homem ainda menino
E forçado a me matar a cada dia

E reergui-me, caindo em seguida;

Com a brancura de lençóis inocentes
Mantive o negror da tentação afastado
Enquanto diziam-me: “Salvou-te a alma”

E minhas idéias e ideais evanescem;

E se não escolhi meu nome
Tampouco o que fui ou virei a ser
(Ou serei a vir, ou verei a ir!)
A quem quer que passe, pergunto:

-Sabes quem és? E eu, quem sou?

E ando, sem esperar resposta.


Cedo

segunda-feira, 26/01/09

É cedo, o céu escuro lá fora
joga o mundo na penumbra sombria
a que estamos mais que acostumados

É cedo, pessoas se matam,
se suicidam enquanto cães ladram
abafando desejos sexuais murmurados

É cedo, e os escritores malditos
batem incansavelmente em suas gastas teclas
e músicos de jazz tocam solos improvisados

É cedo, embora tarde para as putas
esperando fregueses tristes em suas janelas tristes
e poetas lêem Hemingway, tristes e embriagados

É cedo, e embora vai a noite
vão dormir os boêmios e suicidas frustrados
já caíram os drogados e bêbados inveterados

É cedo, e nada disso me preocupa
não ligo pra jazzistas e escritores, putas tampouco
afinal passei a noite pensando na morena, acordado.

É cedo. Vou dormir.


Paráfrase sobre uma manhã de carnaval

domingo, 19/10/08

Era manhã, afinal. E que bela manhã! O mundo entrava por todas as janelas da pequena casa, trazendo ares de renovação. Que se danasse que não era o revéillon, o verdadeiro ano novo começava ali e naquele momento. Ano novo muito bem-vindo aliás, pois com ele vinham sentimentos já esquecidos, chegando como amigos antigos e queridos que, apesar de terem se distanciado por um triste acaso, agora retornavam.

De fato, nascia ali, cheia de esperanças e anseios, uma nova vida de uma triste e medíocre existência, como uma nova e bela canção nascida, talvez, dos tortos acordes de um pianista inexperiente. Uma canção, sim, e cantando apenas sobre Ela. Ela, que lhe mandara, na noite passada (agora um tanto distante), um tímido sorriso, tornado ainda mais belo que já era pelos grande olhos de moça do campo. Ela, que, ao vê-lo entre os amigos, tocando um samba do poetinha no velho pinho, lhe arrancara – ali, no meio de todos! – suspiros de desejo por aqueles lábios doces que lhe sorriam.

Talvez, se a interação tivesse parado por aí, não teria causado o impacto que causou na vida d’Ele, e talvez a renovação vital nunca viesse. Ela, porém se sentara ao lado dele, cantando os tristes versos num desafinado (e, talvez por isso mesmo, sublime) dueto, Ele com sua voz grave e já um pouco rouca pela bebida e cantoria, e Ela num delicado timbre de menina, que só servira para aumentar a estranha ternura do homem pela moça.

Começaram a conversar, e Ele se deslumbrava com cada palavra que saía da boca tão desejada. Beijaram-se, afinal, e por esse beijo Ele lhe contou todas as suas já desenganadas esperanças, os sonhos não-realizados, a frustração de nunca ter alcançado as fantasias de rapaz. Ela, por sua vez, o confortava, também no beijo, e lhe mostrava vislumbres de uma nova vida, muito mais ampla do que Ele já tinha imaginado, com objetivos maiores do que tudo a que ele tinha se disposto a alcançar até então. O beijo gnóstico o transformara de maneira que fez todas suas metas e ambições de antes parecerem desbotadas e ofuscadas pelas novas perspectivas que via. E Ela então se foi, com a promessa de se encontrarem de novo no dia seguinte.

Na noite não houve sonhos, apenas um sono tranqüilo, restaurador, recebido por Ele como algo há muito devido e, depois de muita espera, dado. Ao acordar, a lembrança d’Ela e do beijo ainda estava firme em sua mente, e a idéia do dia feliz que nascia animou-o. Estava disposto a tornar o dia recém-nascido o melhor possível, afinal, depois desse dia feliz, quem sabe se outro haveria?  Levantou-se da cama e, abrindo os braços, saudou a manhã que nascia, uma bela manhã, afinal. Manhã de carnaval.

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Resolvi começar esse blog com um texto, feito meio correndo para “pegar o embalo”. Abaixo um comentário sobre ele, por eu mesmo:

Como a maioria já deve ter percebido, o que eu fiz nesse primeiro texto foi pegar a canção Manhã de Carnaval, de Paulo Bonfá, e, pela minha própria interpretação da letra, expandir o tema descrito nos versos e desenvolvê-lo em prosa. O propósito original desse texto, feito às pressas e de madrugada, foi mais de servir de início a uma série de estudos que estou fazendo para fixar um estilo meu (ainda desconhecido) do que ser exibido como composição minha. Só peço que perdoem o romantismo exagerado, é um efeito colateral de escrever nessas horas noturnas. Há, com certeza, uma certa pobreza no texto, que poderá (ou não) vir a ser corrigida no futuro, mas como esse é apenas um estudo, vou deixar passar e publicá-lo assim mesmo. Não sou Chopin, afinal.