Impressões Introspectivas Sobre a Mudança

Sem pensar mais, tentou abrir a porta. Trancada. O homem, que fez da reflexão e da cautela sua vida, não podia esperar mais, e a arrombou. De dentro vinha o cheiro forte dos lugares fechados há muito, e o negrume era suavizado apenas pelos respingos de luz que o vitral deixava passar. Respirando fundo, passou pela porta. Ao pisar no umbral, porém, uma voz atrás de si falou:

-Sabe que não devia estar aqui.

Era apenas um velho, já sem brilho nos olhos, que falava. O homem não lhe deu ouvidos. Sabia quem era o velho, e sabia que, se o escutasse demais, acabaria por não agir. E precisava agir, queria agir. O velho balançou a cabeça enquanto o homem penetrava na treva.
E que treva estranha o homem penetrava! Nos cantos, mal discerníveis no escuro, viam-se pilhas e pilhas de ossos, lixo, e mesmo objetos que deviam ter sido tesouros em seus tempos. Nas paredes, rabiscos indecifráveis sujavam a pedra, já escurecida por algum fogo que ali ardeu. Do lado oposto à porta, uma corrente de ar denunciou um corredor, e o homem andou em sua direção. O vento lhe fez frio, e o homem ficou com medo. De trás, veio novamente a voz do velho:

-Desista, enquanto há tempo. Por esse caminho, só incertezas.

O homem quase lhe deu ouvidos, mas seguiu em frente. O medo pesava-lhe as pernas, e cada passo era um martírio. A menos de dois passos do corredor, deste saiu um menino. Aparentava uns sete anos, talvez menos, e vestia roupas sujas e rasgadas. Pondo seus grandes olhos nos do homem, falou:

-Moço, volta. Ninguém sabe o que há no final do corredor, e é melhor não descobrir.

O homem sabia também que não devia deixar-se levar pelo menino, e seguiu pelo caminho. Ao final, encontrou uma porta, e, a seu lado, um soldado moribundo, sem espada e com o elmo partido. Este disse ao homem:

-Homem, desista, não vale a pena tal esforço. Tantas vezes entregou-se, pra quê insistir agora? Vai, e leva-me embora daqui.

E agarrou-se à perna do homem, que, enojado, sacudiu-a até se ver livre. E sabendo que não podia esperar mais, abriu a porta e correu.

E atrás da porta extendia-se-se o inferno e o céu.

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