Rotina

domingo, 12/04/09

I – Presto

Acordou, cedo como sempre. Sem perder tempo, levantou–se e tomou um banho pra afastar o sono. Comeu rapidamente enquanto observava o estado deplorável da cozinha. “Precisa de uma pintura, urgente”, pensou – não que  fizesse alguma diferença, ao menos não nas horas corridas da manhã. Saiu de casa e correu pro ponto de ônibus. Esperou e esperou pelo coletivo, e mais ainda dentro do próprio, a caminho do trabalho.

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II – Allegro, ma non troppo

Trabalho, trabalho, trabalho. Café. Mais trabalho, com direito ao maldito chefe ligando da praia para saber como estavam as coisas. Almoço. Conversa fútil, com um colega indiferente. Ainda mais trabalho. Formulários. Planilhas. Outro café, frio. Relatórios.

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III – Andante molto

Esperou, quase que entorpecido, pela chegada do ônibus, o cansaço nublando o caminho pra casa, em especial o ponto correto. Tropeçou até a porta da casa e entrou. Comeu tão lentamente quanto possível, refletindo sobre a prioridade do trabalho a ser feito nas paredes da cozinha. “Pode esperar”, pensou – não que valesse de algo, ao menos não com a exaustão do dia tornando as idéias difusas. Arrastou-se até o chuveiro  e ligou a água quente pra atrair o sono. Foi dormir, cedo como sempre.

E a vida passava, despercebida.

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Impressões Introspectivas Sobre a Mudança

sexta-feira, 03/04/09

Sem pensar mais, tentou abrir a porta. Trancada. O homem, que fez da reflexão e da cautela sua vida, não podia esperar mais, e a arrombou. De dentro vinha o cheiro forte dos lugares fechados há muito, e o negrume era suavizado apenas pelos respingos de luz que o vitral deixava passar. Respirando fundo, passou pela porta. Ao pisar no umbral, porém, uma voz atrás de si falou:

-Sabe que não devia estar aqui.

Era apenas um velho, já sem brilho nos olhos, que falava. O homem não lhe deu ouvidos. Sabia quem era o velho, e sabia que, se o escutasse demais, acabaria por não agir. E precisava agir, queria agir. O velho balançou a cabeça enquanto o homem penetrava na treva.
E que treva estranha o homem penetrava! Nos cantos, mal discerníveis no escuro, viam-se pilhas e pilhas de ossos, lixo, e mesmo objetos que deviam ter sido tesouros em seus tempos. Nas paredes, rabiscos indecifráveis sujavam a pedra, já escurecida por algum fogo que ali ardeu. Do lado oposto à porta, uma corrente de ar denunciou um corredor, e o homem andou em sua direção. O vento lhe fez frio, e o homem ficou com medo. De trás, veio novamente a voz do velho:

-Desista, enquanto há tempo. Por esse caminho, só incertezas.

O homem quase lhe deu ouvidos, mas seguiu em frente. O medo pesava-lhe as pernas, e cada passo era um martírio. A menos de dois passos do corredor, deste saiu um menino. Aparentava uns sete anos, talvez menos, e vestia roupas sujas e rasgadas. Pondo seus grandes olhos nos do homem, falou:

-Moço, volta. Ninguém sabe o que há no final do corredor, e é melhor não descobrir.

O homem sabia também que não devia deixar-se levar pelo menino, e seguiu pelo caminho. Ao final, encontrou uma porta, e, a seu lado, um soldado moribundo, sem espada e com o elmo partido. Este disse ao homem:

-Homem, desista, não vale a pena tal esforço. Tantas vezes entregou-se, pra quê insistir agora? Vai, e leva-me embora daqui.

E agarrou-se à perna do homem, que, enojado, sacudiu-a até se ver livre. E sabendo que não podia esperar mais, abriu a porta e correu.

E atrás da porta extendia-se-se o inferno e o céu.


Reflexões Melodramáticas ao Fim da Juventude

sexta-feira, 03/04/09

Eu, que jogado por terra
Tantas e tantas vezes
Tentei seguir o conselho do Velho:

E fui destruído, mas não derrotado;

E atirado aos leões por ser bom
E tornado homem ainda menino
E forçado a me matar a cada dia

E reergui-me, caindo em seguida;

Com a brancura de lençóis inocentes
Mantive o negror da tentação afastado
Enquanto diziam-me: “Salvou-te a alma”

E minhas idéias e ideais evanescem;

E se não escolhi meu nome
Tampouco o que fui ou virei a ser
(Ou serei a vir, ou verei a ir!)
A quem quer que passe, pergunto:

-Sabes quem és? E eu, quem sou?

E ando, sem esperar resposta.