Interlúdio – Os fins de tarde de verão

segunda-feira, 20/10/08

Poucos momentos são tão sublimes quanto um fim de tarde de verão, em especial aquelas poucas horas nas quais o sol ainda não se pôs totalmente, embora já tenha descido do trono celeste. A temperatura cai um pouco, o clima se torna mais agradável, as pessoas caminham nas avenidas caladas dos bairros ricos. As árvores lançam sombras compridas no asfalto e os últimos raios de luz se espalham pela água. É interessante parar por um instante o ritmo corrido do cotidiano e observar como o horizonte urbano se transforma, como a natureza parece dar vida a uma paisagem antes morta. Mesmo sem tanto movimento, há vida nas ruas ainda iluminadas e até mesmo aquela torre horrível de celular num morro próximo se torna um monumento, um monolito negro contra o sol poente. É hora de se chegar nas varandas das casas e apartamentos, pôr pra tocar um bom samba ou um jazz levinho e, com um copo de whisky (ou uma limonada), se despedir do astro morrendo e saudar a velha noite.

E pensar que tanta gente por aí, voltando nos ônibus ou mesmo depois de passar a tarde em casa, desperdiça tal momento de grandeza do dia com futilidades como a novela ou os scraps não lidos do yorgut! É quase um sacrilégio trocar um espetáculo da magnitude do pôr-do-sol. No pôr-do-sol, até os problemas devem ser esquecidos. Em respeito à morte do grande astro e já saudando a sua ressureição, só bons pensamentos são permitidos.

Muitas vezes quando conto às pessoas dessa minha admiração, elas riem, me chamam de bobo, dizem que eu perco meu tempo com isso. Mas com sorte chegará o tempo em que todos voltarão a olhar para fora desse mundo limitado de hoje e verão pelas paredes de vidro dos seus arranha-céus o espetáculo do velho rei partindo com sua dignidade costumeira. E serão mais felizes, pode apostar.

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Dica da semana – Bill Evans Trio – Waltz for Debby (Disco)

domingo, 19/10/08

Pessoal, estou inaugurando essa nova coluna (meio manjada, eu sei) onde, sempre no domingão, vou indicar e comentar um livro, disco ou filme, não necessariamente obscuro ou desconhecido. Para começar, um grande disco de um dos grandes mestres do jazz, Bill Evans – Waltz for Debby.

Pra início de conversa, vou explicar o que foi o movimento musical Cool Jazz. Embora as raízes do estilo remontem ao final da década de 20, ele só seria consolidado 20 anos mais tarde. O jazz – especialmente o bop – adquiria uma complexidade técnica e rítmica cada vez maiores, o que não agradava a todos. Começou-se então a desenvolver um estilo de jazz de linhas mais suaves e rítmos mais tranquilos, embora com a mesma (senão maior) complexidade harmônica do bop. É um estilo caracteristicamente mais introvertido, de solos intimistas e mais “líricos”. Há algo impressionista na harmonia, na dissonância dos acordes e no complexo encadeamento dos blocos. Nesse estilo destacaram-se músicos-chave do jazz, como Miles Davis, Stan Getz e o próprio Bill Evans.

“Waltz for Debby” foi lançado em 1961, logo já mostra o Cool Jazz maduro e bem definido do trio. O piano de Bill Evans, tocado quase à perfeição, com improvisos de uma profundidade absurda, é realmente o diferencial do grupo, muito embora os outros músicos sejam também excelentes, principalmente o baixo de LaFaro, que estabeleceu um novo padrão para o baixo no jazz.

É um disco para se ouvir tranqüila e atentamente, cada arranjo mostrando a genialidade imensa do mestre que foi Bill Evans.

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Bill Evans Trio – Waltz For Debby:

Ano: 1961

Line-up:
Bill Evans – Piano
Scott LaFaro – Contrabaixo
Paul Motian – Bateria

Selo: Riverside (NY)


Paráfrase sobre uma manhã de carnaval

domingo, 19/10/08

Era manhã, afinal. E que bela manhã! O mundo entrava por todas as janelas da pequena casa, trazendo ares de renovação. Que se danasse que não era o revéillon, o verdadeiro ano novo começava ali e naquele momento. Ano novo muito bem-vindo aliás, pois com ele vinham sentimentos já esquecidos, chegando como amigos antigos e queridos que, apesar de terem se distanciado por um triste acaso, agora retornavam.

De fato, nascia ali, cheia de esperanças e anseios, uma nova vida de uma triste e medíocre existência, como uma nova e bela canção nascida, talvez, dos tortos acordes de um pianista inexperiente. Uma canção, sim, e cantando apenas sobre Ela. Ela, que lhe mandara, na noite passada (agora um tanto distante), um tímido sorriso, tornado ainda mais belo que já era pelos grande olhos de moça do campo. Ela, que, ao vê-lo entre os amigos, tocando um samba do poetinha no velho pinho, lhe arrancara – ali, no meio de todos! – suspiros de desejo por aqueles lábios doces que lhe sorriam.

Talvez, se a interação tivesse parado por aí, não teria causado o impacto que causou na vida d’Ele, e talvez a renovação vital nunca viesse. Ela, porém se sentara ao lado dele, cantando os tristes versos num desafinado (e, talvez por isso mesmo, sublime) dueto, Ele com sua voz grave e já um pouco rouca pela bebida e cantoria, e Ela num delicado timbre de menina, que só servira para aumentar a estranha ternura do homem pela moça.

Começaram a conversar, e Ele se deslumbrava com cada palavra que saía da boca tão desejada. Beijaram-se, afinal, e por esse beijo Ele lhe contou todas as suas já desenganadas esperanças, os sonhos não-realizados, a frustração de nunca ter alcançado as fantasias de rapaz. Ela, por sua vez, o confortava, também no beijo, e lhe mostrava vislumbres de uma nova vida, muito mais ampla do que Ele já tinha imaginado, com objetivos maiores do que tudo a que ele tinha se disposto a alcançar até então. O beijo gnóstico o transformara de maneira que fez todas suas metas e ambições de antes parecerem desbotadas e ofuscadas pelas novas perspectivas que via. E Ela então se foi, com a promessa de se encontrarem de novo no dia seguinte.

Na noite não houve sonhos, apenas um sono tranqüilo, restaurador, recebido por Ele como algo há muito devido e, depois de muita espera, dado. Ao acordar, a lembrança d’Ela e do beijo ainda estava firme em sua mente, e a idéia do dia feliz que nascia animou-o. Estava disposto a tornar o dia recém-nascido o melhor possível, afinal, depois desse dia feliz, quem sabe se outro haveria?  Levantou-se da cama e, abrindo os braços, saudou a manhã que nascia, uma bela manhã, afinal. Manhã de carnaval.

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Resolvi começar esse blog com um texto, feito meio correndo para “pegar o embalo”. Abaixo um comentário sobre ele, por eu mesmo:

Como a maioria já deve ter percebido, o que eu fiz nesse primeiro texto foi pegar a canção Manhã de Carnaval, de Paulo Bonfá, e, pela minha própria interpretação da letra, expandir o tema descrito nos versos e desenvolvê-lo em prosa. O propósito original desse texto, feito às pressas e de madrugada, foi mais de servir de início a uma série de estudos que estou fazendo para fixar um estilo meu (ainda desconhecido) do que ser exibido como composição minha. Só peço que perdoem o romantismo exagerado, é um efeito colateral de escrever nessas horas noturnas. Há, com certeza, uma certa pobreza no texto, que poderá (ou não) vir a ser corrigida no futuro, mas como esse é apenas um estudo, vou deixar passar e publicá-lo assim mesmo. Não sou Chopin, afinal.